Caixas

Um trecho do livro Você está louco! do Ricardo Semler, um cara que questiona tudo. Neste trecho ele questiona o sistema de ensino e a noção de sucesso em uma teoria curiosa mas bem real, a qual ele chama teoria das caixinhas:

No mundo adulto, a idéia é deixar a vida pessoal para trás, sair de uma caixinha (apartamento) pela manhã, entrar em outra, sobre rodas (ônibus, metrô ou carro) e chegar em outra maior (escritórios ou fábricas sem vista para fora), para ficar o dia inteiro, e voltar via caixa-sobre-rodas para a caixa-mãe. Lá, é sentar na frente da caixinha-com-tela ou daquela caixa-com-Internet, depois cair desacordado por sobre uma caixa-com-colchão. No dia seguinte, transitar novamente entre caixinhas. Que vida!

Na infância, a mãe deixa a criança na porta da escola, muitas vezes contra a vontade da bichinha, para ser “cuidada” e educada por terceiros. Uma caixinha da qual ela não pode sair, na qual ela é empilhada com outras 20 crianças, sem poder sair para o pátio (outra caixinha, aliás, da qual ela também não pode sair).

Se isso for treinamento para uma vida insossa em caixinhas claustrofóbicas, é realmente um sistema exemplar. Se for para ensinar à criança que a vida é cruel, que nunca é possível fazer o que se quer, que mais tarde tudo será assim – cinzento, duro e repetitivo -, então o sistema educacional é um sucesso. Prepara, de fato, a criança para o miserável mercado de trabalho que os pais míopes acham que será igual daqui a 15 anos, quando suas crianças virarem jovens adultos prontos para brigar, competir, atropelar e acotovelar, para serem capazes de comprar caixinhas maiores para morar, caixinhas mais rápidas para dirigir e caixinhas de canto no escritório para trabalhar. Onde pessoas dentro de caixinhas de organograma mandam em caixinhas de cronogramas. Ora…

O que está no âmago do que os pais procuram na educação? Afinal, as crianças são papéis em branco, prontas como esponjas para serem inculcadas com conhecimento e práticas sociais? São matéria-prima para o difuso rei-pagão, o mercado de trabalho? Devem ser sacrificadas no altar do emprego, para então serem declaradas sucesso ou fracasso, dependendo de quanto subirem na hierarquia das caixinhas?

As empresas da era industrial se utilizam bastante das pequenas caixas. Com seus complexos e completos processos, tratam as pessoas como executores de tarefas definidas em caixinhas.

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3 Responses to Caixas

  1. Alexandre disse:

    “Afinal, as crianças são papéis em branco, prontas como esponjas para serem inculcadas com conhecimento e práticas sociais?”

    Não! Esse é o mito da tábula rasa, que os humanos nascem sem nada na cabeça e tudo tem que ser ensinado. É um mito porque na verdade a carga hereditária da espécie é enorme. A carga humana é uma na qual não existe o conceito de passar o dia em caixinhas e sim no meio do mato. Esse negócio de caixinhas é BEM recente na humanidade. Em todo caso, natural ou não, gosto tanto das minhas caixinhas quanto das experiências em lugares abertos.

  2. Anderson disse:

    Pois é, este processo de fazer mais do mesmo, as vezes até um pouco melhor tem que acabar. Hoje o mundo não é mais como era a 5 anos atrás e não será o mesmo daqui a 2 anos. Cada vez mais os avanços tecnológicos impulsionam novas fronteiras em todas as áreas de conhecimento, como a educação, por exemplo. É preciso inovar, adaptar antigas realidades para os novos paradigmas e assim conseguir extrair o melhor do que essas mudanças tem a oferecer. Porém com cuidado, pois pode ser uma faca de dois gumes. Um vídeo bem interessante sobre as novas mudanças e seus devidos impactos é esse: http://www.youtube.com/watch?v=xKps5DBJEJ4. Um pouco assustador, porém com infinitas possibilidades de melhorias. Depende do uso. Abraço!

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